Medicamentos como semaglutida e tirzepatida, presentes em tratamentos conhecidos por nomes comerciais como Ozempic®, Wegovy® e Mounjaro®, transformaram o tratamento da obesidade e de condições metabólicas associadas.
A redução do apetite e da ingestão alimentar pode contribuir para perdas importantes de peso. Mas o tratamento não deveria ser avaliado apenas pelo número que diminui na balança.
É importante observar também o que está sendo perdido, como está a qualidade da alimentação, se as necessidades nutricionais continuam sendo atendidas, como está a tolerância gastrointestinal e quais estratégias estão sendo construídas para preservar massa muscular e manter os resultados ao longo do tempo.
O consenso europeu publicado em 2026 pela EASO, EFAD e ECPO reforça justamente a necessidade de integrar aspectos nutricionais e funcionais ao tratamento com terapias baseadas em incretinas.
Sou Richardson Marcolino, nutricionista clínico e esportivo, CRN-1 19004, e realizo acompanhamento nutricional de pacientes em tratamento com medicamentos baseados em GLP-1, presencialmente em Goiânia, e também por consulta online.
Agendar acompanhamento nutricional
GLP-1 é a sigla de glucagon-like peptide-1, um hormônio produzido pelo organismo que participa, entre outras funções, da regulação da saciedade e do metabolismo da glicose.
Alguns medicamentos reproduzem ou ampliam ações relacionadas a esse sistema.
A semaglutida é um agonista do receptor de GLP-1 e está presente em medicamentos como Ozempic® e Wegovy®.
A tirzepatida possui mecanismo diferente: atua sobre os receptores de GIP e GLP-1 e é o princípio ativo do Mounjaro®.
Essas diferenças são importantes, mas existe algo comum do ponto de vista nutricional: a diminuição da fome e da quantidade de alimentos consumidos pode modificar significativamente a alimentação do paciente.
A ABESO inclui semaglutida e tirzepatida entre os medicamentos de alta potência discutidos em sua Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade 2026.
[Entenda a semaglutida e o acompanhamento nutricional]
[Entenda a tirzepatida e o acompanhamento nutricional]
Uma das mudanças mais perceptíveis durante o tratamento pode ser a redução da fome.
E aqui existe uma diferença fundamental:
Comer menos não significa necessariamente comer melhor.
Quando o volume alimentar diminui, pode se tornar mais difícil manter uma alimentação suficientemente variada e adequada em proteínas, fibras, vitaminas, minerais e líquidos.
Além disso, alguns pacientes apresentam saciedade precoce, náusea, refluxo, constipação, diarreia ou sensação prolongada de estômago cheio, o que pode dificultar ainda mais a alimentação.
Os materiais clínicos que analisamos chamam atenção justamente para esse problema: priorizar isoladamente proteína, cortar carboidratos ou aumentar fibras sem avaliar a refeição como um todo pode resolver uma questão e criar outra.
O acompanhamento nutricional, portanto, não consiste simplesmente em entregar uma dieta com menos calorias.
Ele procura responder a perguntas mais importantes:
O que essa pessoa está conseguindo comer?
A quantidade de proteína está adequada?
Como está a qualidade global da alimentação?
Há sintomas interferindo nas refeições?
A hidratação está suficiente?
O emagrecimento está ocorrendo com atenção à composição corporal?
A estratégia cabe na rotina e pode ser sustentada?
É esse conjunto que orienta a individualização da conduta nutricional.
Não existe uma única “dieta para GLP-1”.
A estratégia alimentar depende de fatores como composição corporal, idade, nível de atividade física, objetivo, condições clínicas, exames laboratoriais, sintomas, preferências, rotina e capacidade alimentar.
Um erro possível é imaginar que, como a pessoa está com pouca fome, basta aproveitar para comer o mínimo possível.
A redução do apetite não elimina as necessidades nutricionais do organismo.
Quando há menos espaço para comer, a qualidade das escolhas passa a ter ainda mais importância.
O acompanhamento pode envolver, conforme a necessidade individual:
O posicionamento da ABESO sobre tratamento nutricional da obesidade foi elaborado a partir da análise de estudos controlados, revisões sistemáticas e meta-análises e reforça que o tratamento nutricional da obesidade é muito mais amplo do que simplesmente prescrever restrição alimentar.
[Saiba mais sobre alimentação durante o tratamento com GLP-1]
Sim, mas “coma mais proteína” é uma orientação incompleta.
A redução importante da ingestão alimentar pode diminuir também a quantidade absoluta de proteína consumida.
Por outro lado, transformar todas as refeições em proteína também não é uma boa solução.
O material de manejo nutricional que analisamos chama atenção para esse equilíbrio: quando carnes, ovos, queijos ou suplementos passam a dominar refeições muito pequenas, frutas, vegetais, leguminosas e fontes de carboidratos podem ser deslocados, comprometendo fibras, variedade e qualidade global da alimentação.
Portanto, o objetivo é adequar a proteína dentro de uma alimentação nutricionalmente completa, e não tratar um único macronutriente como solução para todos os problemas.
A quantidade adequada não é igual para todas as pessoas. Idade, composição corporal, atividade física, ingestão energética, condições clínicas e objetivo precisam ser considerados.
Essa pergunta merece uma resposta sem alarmismo:
durante uma perda significativa de peso, parte do peso perdido pode corresponder à massa livre de gordura. Isso não acontece exclusivamente com medicamentos baseados em GLP-1.
Uma meta-análise publicada em 2026 reuniu 20 ensaios clínicos randomizados e 15.782 participantes. A proporção do peso perdido correspondente à massa magra foi de aproximadamente 35,2% com semaglutida, 25,4% com tirzepatida e 26,8% com liraglutida. Nas intervenções de estilo de vida, a proporção agrupada foi semelhante, 26,2%.
Isso ajuda a corrigir uma interpretação frequente:
não é cientificamente adequado dizer simplesmente que “Ozempic ou Mounjaro destroem músculos”.
Ao mesmo tempo, também seria inadequado ignorar a perda de tecido livre de gordura durante emagrecimentos importantes.
E existe outra cautela: massa magra, massa livre de gordura e massa muscular esquelética não são exatamente a mesma coisa. O método utilizado para avaliar composição corporal também influencia o que está sendo medido.
Por isso, o objetivo não deveria ser apenas perder muitos quilos.
Deveria ser buscar qualidade no emagrecimento, reduzindo gordura e procurando preservar o máximo possível de massa muscular e função.
Não existe uma única intervenção capaz de garantir preservação completa de massa muscular.
Entretanto, algumas estratégias merecem atenção especial:
alimentação adequada + proteína suficiente + treinamento resistido + acompanhamento da evolução corporal e funcional.
Na meta-análise de 2026, intervenções de estilo de vida associadas ao treinamento resistido apresentaram o perfil mais favorável de preservação de massa magra entre as estratégias analisadas.
O consenso EASO/EFAD/ECPO de 2026 também inclui aspectos nutricionais e funcionais entre as preocupações relevantes durante tratamentos baseados em incretinas.
Isso é particularmente importante em pessoas mais velhas, pacientes com baixa ingestão alimentar, perda rápida de peso ou outras situações em que preservar massa e função muscular se torna prioridade clínica.
Quer aprofundar este assunto?
Publiquei uma análise específica sobre as evidências mais recentes:
Os efeitos adversos gastrointestinais estão entre os problemas mais frequentemente relatados com agonistas do receptor de GLP-1.
Podem ocorrer, entre outros:
náusea, vômitos, diarreia, constipação, dor abdominal, refluxo, distensão e sensação prolongada de plenitude.
A frequência e a intensidade podem variar de acordo com medicamento, dose, fase do tratamento e características individuais. O material que analisamos destaca que muitos desses sintomas aparecem principalmente no início do tratamento ou após aumentos de dose e frequentemente diminuem com a adaptação.
Um consenso multidisciplinar publicado no Journal of Clinical Medicine também descreve náusea, vômitos, diarreia e constipação entre os principais eventos gastrointestinais e apresenta estratégias para seu manejo durante o tratamento. A publicação e o DOI foram confirmados no PubMed.
Em muitos casos, sim. Mas a estratégia depende do sintoma e da pessoa.
Não existe uma lista universal de alimentos que todos os pacientes usando GLP-1 devam evitar.
Volume da refeição, quantidade de gordura, velocidade ao comer, ingestão de líquidos, tipo e quantidade de fibras, outros medicamentos, suplementos e condições gastrointestinais anteriores podem interferir nos sintomas.
Por exemplo, refeições muito volumosas ou concentradas em gordura podem ser pior toleradas por algumas pessoas.
Na constipação, simplesmente dizer “coma mais fibras” também pode ser insuficiente. Tipo de fibra, quantidade, progressão e hidratação importam.
O material que analisamos diferencia características das fibras e recomenda que aumentos sejam progressivos e acompanhados de hidratação suficiente.
Na hidratação, pequenos volumes distribuídos ao longo do dia podem ser mais toleráveis para pessoas que apresentam plenitude ou náusea com grandes quantidades de líquido de uma só vez.
Essas estratégias também encontram respaldo em publicação específica sobre recomendações alimentares para sintomas gastrointestinais durante tratamento com agonistas de GLP-1, publicada em 2024.
Saiba mais sobre sintomas gastrointestinais e alimentação durante o uso de GLP-1
Não.
Sintomas leves e transitórios podem ocorrer durante o tratamento, mas sintomas importantes não devem simplesmente ser atribuídos ao medicamento e ignorados.
Dor abdominal intensa ou persistente, vômitos repetidos, incapacidade de manter líquidos e sinais de desidratação exigem avaliação clínica adequada.
Além disso, nem todo sintoma gastrointestinal começou com o GLP-1.
Constipação ou refluxo prévios, ingestão hídrica inadequada, outros medicamentos e até suplementos podem participar do problema.
Nesses casos, a comunicação entre paciente, nutricionista e médico responsável pelo tratamento ganha importância.
Não automaticamente.
O uso de semaglutida ou tirzepatida, por si só, não significa que toda pessoa precise receber uma combinação de suplementos.
A necessidade deve ser avaliada considerando alimentação, quantidade ingerida, variedade alimentar, sintomas, condições clínicas e exames laboratoriais quando indicados.
O material de manejo nutricional que analisamos é explícito ao afirmar que não existe recomendação para prescrever polivitamínicos automaticamente a todos os usuários de agonistas de GLP-1 ou tirzepatida. Também chama atenção para o fato de que alguns suplementos podem eles próprios contribuir para sintomas gastrointestinais.
Ou seja: suplementação deve ter indicação, não ser uma consequência automática do nome do medicamento.
Porque a resposta ao tratamento não é uniforme.
Mesmo em grandes ensaios clínicos, participantes usando o mesmo medicamento apresentam resultados bastante diferentes.
O material sobre variabilidade que analisamos mostra exatamente isso: a média de perda de peso de um estudo descreve o grupo, mas não prevê exatamente quanto determinado indivíduo perderá.
Isso também significa que promessas como:
“você vai perder X quilos”
ou
“você vai perder X% do peso”
não são apropriadas.
Além disso, uma resposta inicial mais lenta não necessariamente significa ausência de resposta. Em uma análise post hoc com tirzepatida discutida no material, participantes que ainda não tinham atingido 5% de perda na semana 12 frequentemente atingiram esse patamar posteriormente. Os próprios autores do material ressaltam as limitações dessa análise e que ela não deve ser usada isoladamente para mudar protocolos.
A avaliação do tratamento pertence ao médico responsável e deve considerar muito mais do que um único número em uma única semana.
A balança responde:
“quanto você pesa?”
Ela não responde sozinha:
“o que mudou no seu corpo?”
Por isso, dependendo do caso, a avaliação da composição corporal pode complementar o acompanhamento.
No meu atendimento, a evolução pode ser acompanhada por meio de peso, medidas corporais, bioimpedância e outros métodos de avaliação corporal, interpretados juntamente com alimentação, atividade física, evolução clínica e objetivos.
O objetivo não é transformar pequenas oscilações da composição corporal em motivo de preocupação.
É acompanhar tendências e utilizar as informações para orientar a estratégia nutricional.
Pode ocorrer reganho de peso após a retirada de medicamentos utilizados no tratamento da obesidade.
Esse ponto é importante porque obesidade é uma condição crônica e seu tratamento não deveria ser pensado apenas como uma corrida para atingir determinado número na balança.
No estudo SURMOUNT-4, participantes que haviam recebido tirzepatida e depois foram randomizados para placebo apresentaram reganho substancial de peso, enquanto aqueles que continuaram o tratamento mantiveram e ampliaram a redução inicial.
Uma análise posterior do SURMOUNT-4 mostrou ainda associação entre maior reganho após retirada da tirzepatida e maior reversão de algumas das melhorias cardiometabólicas alcançadas durante o tratamento.
Isso não significa que o nutricionista determine quando um medicamento deve ser retirado.
A indicação, dose, continuidade, substituição ou interrupção da medicação são decisões que pertencem ao profissional responsável pelo tratamento farmacológico.
Do ponto de vista nutricional, porém, existe uma mensagem importante:
a estratégia de longo prazo não deveria começar somente no dia em que o medicamento é retirado.
Organização alimentar, atividade física, preservação muscular, rotina e estratégias sustentáveis precisam ser trabalhadas ao longo do acompanhamento.
[Saiba mais sobre manutenção e reganho de peso após GLP-1]
Não. São atuações complementares.
O médico responsável avalia indicação farmacológica, contraindicações, escolha do medicamento, dose, titulação, efeitos adversos que necessitem intervenção médica e continuidade ou interrupção do tratamento.
O acompanhamento nutricional concentra-se na alimentação, estado nutricional, composição corporal, comportamento alimentar, rotina, tolerância alimentar e estratégias nutricionais relacionadas ao tratamento.
Quando necessário, o cuidado pode ocorrer de forma integrada com outros profissionais.
O ponto de partida não é perguntar apenas “qual caneta você está usando?”
É compreender a pessoa que está fazendo o tratamento.
Na avaliação inicial, considero aspectos como:
A partir disso, construímos uma estratégia alimentar individualizada.
Nos retornos, avaliamos a evolução e fazemos os ajustes necessários de acordo com resposta individual, alimentação, composição corporal, sintomas, treinamento e mudanças da rotina.
Isso é especialmente relevante porque a resposta às terapias baseadas em GLP-1 varia entre indivíduos e porque, no mundo real, adesão e permanência no tratamento também variam consideravelmente.
Sou Richardson Marcolino, nutricionista clínico e esportivo, CRN-1 19004, com atuação em obesidade, emagrecimento, saúde metabólica e recomposição corporal.
Realizo atendimento presencial no Centro Clínico Medicorum, no Jardim América, em Goiânia – GO, além de atendimento online.
Meu objetivo no acompanhamento de pacientes em tratamento com GLP-1 não é simplesmente potencializar a restrição alimentar.
É ajudar a construir uma estratégia para que o emagrecimento ocorra com atenção à qualidade da alimentação, adequação nutricional, composição corporal, massa muscular, sintomas, rotina e manutenção dos resultados.
Agendar acompanhamento nutricional
O acompanhamento nutricional pode ser útil porque a redução do apetite pode modificar significativamente a quantidade e a qualidade da alimentação. O objetivo é individualizar a estratégia de acordo com necessidades nutricionais, composição corporal, sintomas, rotina e condições clínicas.
Proteína merece atenção durante o emagrecimento, especialmente quando a ingestão alimentar diminui muito. Entretanto, não existe uma quantidade universal para todos os usuários de Mounjaro. A necessidade deve ser individualizada.
Perdas significativas de peso podem incluir perda de massa livre de gordura. As evidências atuais não sustentam a simplificação de que esses medicamentos “destroem músculos”. Proteína adequada, treinamento resistido e acompanhamento da composição corporal são estratégias relevantes durante o emagrecimento.
Quando o volume alimentar diminui, a qualidade das escolhas ganha importância. Proteína, fibras, alimentos nutricionalmente densos e hidratação precisam ser considerados de acordo com tolerância e necessidades individuais. O objetivo não é simplesmente comer o mínimo possível.
Esses sintomas podem ocorrer durante terapias baseadas em GLP-1, especialmente no início ou durante mudanças de dose. Entretanto, sintomas intensos, persistentes ou progressivos não devem ser normalizados e podem exigir avaliação médica.
Não necessariamente. A necessidade de suplementação depende da alimentação, sintomas, condições clínicas e, quando pertinente, exames laboratoriais. O uso do medicamento isoladamente não determina automaticamente a necessidade de suplementos.
Sim. Estudos de retirada de medicamentos para obesidade mostram que pode ocorrer reganho de peso após a interrupção. A decisão sobre continuidade ou retirada do medicamento é médica; o acompanhamento nutricional trabalha os componentes alimentares e comportamentais envolvidos na manutenção.
Nesta atuação, meu trabalho é o acompanhamento nutricional do paciente que está utilizando o medicamento dentro de seu tratamento. A indicação e o manejo farmacológico devem ser realizados pelo profissional legalmente habilitado e responsável por essa terapia.
Realizo acompanhamento presencial no Jardim América, em Goiânia, e também atendimento online.
Richardson Marcolino — Nutricionista clínico e esportivo (CRN-1 19004) especializado em emagrecimento, obesidade, doenças crônicas e nutrição esportiva. Atende presencialmente em Goiânia e online para todo o Brasil e brasileiros no exterior.