Resposta direta
Medicamentos baseados em incretinas, como a semaglutida e a tirzepatida, podem promover perdas importantes de peso e trazer benefícios metabólicos relevantes. Mas emagrecer não significa perder apenas gordura: parte da redução de peso pode ocorrer também às custas de massa magra.
Por isso, um novo consenso europeu publicado em 2026 reforça que o tratamento da obesidade com terapias baseadas em GLP-1 deve ser acompanhado por atenção à qualidade da alimentação, ingestão adequada de proteínas, exercício físico, especialmente treinamento resistido, avaliação da composição corporal e acompanhamento profissional.
A mensagem principal é simples: o objetivo não deve ser apenas perder peso, mas perder gordura preservando o máximo possível de massa muscular, função física e qualidade nutricional.
O que é o novo consenso europeu sobre GLP-1?
Em julho de 2026, três importantes organizações europeias publicaram no The Lancet Diabetes & Endocrinology um consenso sobre os aspectos nutricionais, funcionais e psicológicos envolvidos no tratamento com terapias baseadas em incretinas.
Participaram do documento a European Association for the Study of Obesity (EASO), a European Federation of the Associations of Dietitians (EFAD) e a European Coalition for People Living with Obesity (ECPO).
O documento aborda medicamentos que atuam nas vias das incretinas, incluindo agonistas do receptor de GLP-1 e agonistas duais de GIP/GLP-1.
Entre eles estão princípios ativos amplamente utilizados atualmente, como semaglutida, presente em medicamentos como Ozempic® e Wegovy®, e tirzepatida, presente no Mounjaro®.
O consenso reconhece os benefícios dessas terapias no tratamento da obesidade, mas chama atenção para uma questão importante: quando o apetite diminui muito e o peso cai rapidamente, também pode diminuir a ingestão de proteínas, vitaminas, minerais e outros nutrientes importantes.
Por isso, a medicação não deve ser analisada isoladamente da alimentação, da atividade física e da composição corporal.
GLP-1 causa perda de massa muscular?
A resposta exige cuidado.
Pode ocorrer redução de massa magra durante o tratamento, mas isso não significa que medicamentos como semaglutida ou tirzepatida simplesmente “destroem músculo”.
Durante qualquer processo de perda significativa de peso, uma parte do peso perdido pode vir da massa magra.
Uma meta-análise publicada em 2026, reunindo 20 ensaios clínicos randomizados e 15.782 participantes, encontrou que a massa magra representou aproximadamente 25% a 39% do peso perdido com terapias baseadas em incretinas, dependendo do medicamento analisado.

No entanto, a proporção observada nas intervenções convencionais de estilo de vida foi semelhante.
O dado mais interessante apareceu quando exercício resistido foi incorporado à estratégia: a proporção de massa magra na perda total de peso foi menor.
Isso muda a pergunta clínica.
Em vez de perguntar apenas:
“Esse medicamento faz perder músculo?”
A pergunta mais útil é:
“Como podemos fazer com que a maior parte possível do peso perdido seja gordura e preservar massa muscular, força e função?”
Por que preservar massa muscular durante o emagrecimento?
A massa muscular não é importante apenas por razões estéticas.
Ela participa da força, mobilidade, capacidade funcional, metabolismo da glicose, independência física e qualidade de vida.
Essa preocupação se torna ainda mais relevante em pessoas acima dos 40 ou 50 anos, idosos, indivíduos com pouca massa muscular inicial, pessoas sedentárias e pacientes que apresentam emagrecimento muito rápido.
Um número menor na balança não necessariamente significa uma composição corporal melhor.
Duas pessoas podem perder dez quilos e terminar o processo em situações completamente diferentes.
Uma pode perder predominantemente gordura e preservar boa parte da massa muscular.
Outra pode perder quantidade relevante de gordura, mas também músculo.
Por isso, em meu acompanhamento nutricional, procuro analisar a evolução além do peso corporal isolado.
O que o consenso recomenda para preservar massa muscular?
O consenso europeu reforça uma abordagem combinada.
Não existe um alimento, suplemento ou quantidade isolada de proteína capaz de resolver a questão.
Os principais pilares são:
1. Alimentação nutricionalmente adequada
Quando o medicamento reduz muito o apetite, comer menos acontece quase naturalmente. O problema surge quando “comer menos” também significa consumir proteína insuficiente, poucas frutas e vegetais, pouca fibra, pouca água ou uma dieta extremamente monótona.
2. Ingestão adequada de proteína
A proteína tem papel central na manutenção da massa muscular durante o emagrecimento.
Mas a quantidade necessária não deve ser definida por uma fórmula universal.
Ela precisa considerar idade, peso, composição corporal, quantidade de massa muscular, nível de atividade física, déficit energético, velocidade de emagrecimento, função renal, condições clínicas e tolerância alimentar.
3. Treinamento resistido
Musculação e outras formas de treinamento contra resistência fornecem ao organismo o estímulo necessário para preservar ou desenvolver tecido muscular.
Proteína sem estímulo muscular não substitui treinamento.
Da mesma forma, treinar enquanto a ingestão de energia e proteína é muito baixa também pode dificultar a preservação muscular.
4. Monitoramento da evolução
A balança não consegue mostrar de onde veio o peso perdido.
Por isso, quando indicado, avaliar composição corporal ajuda a interpretar melhor o processo e a ajustar alimentação e treinamento.
Quanto de proteína quem usa GLP-1 precisa consumir?
Não existe uma quantidade única que sirva para todos os pacientes.
Diferentes documentos científicos recentes trabalham com faixas que frequentemente ficam acima da recomendação mínima utilizada para adultos saudáveis, especialmente durante períodos de perda de peso.
Em pessoas em processo de emagrecimento, algumas recomendações utilizam aproximadamente 1,0 a 1,5 g de proteína por quilo de peso ajustado por dia, enquanto outros documentos sugerem faixas próximas de 1,2 a 1,5 g/kg/dia em determinadas situações.
Isso não significa que todo paciente usando semaglutida ou tirzepatida deva simplesmente multiplicar o peso corporal por um desses números.
Em pessoas com obesidade importante, usar automaticamente o peso corporal total pode produzir uma estimativa exagerada.
Também existem situações, como algumas doenças renais, em que a quantidade de proteína exige avaliação individualizada.
Por isso, mais importante do que decorar um número é definir uma meta de proteína compatível com a composição corporal, condição clínica, alimentação e rotina de cada pessoa.
O problema pode começar porque a pessoa simplesmente passa a comer pouco demais
Esse é um aspecto particularmente importante durante o tratamento.
Semaglutida e tirzepatida podem reduzir bastante o apetite e aumentar a saciedade.
Para muitos pacientes isso representa uma oportunidade importante para reorganizar a relação com a comida e desenvolver novos hábitos.
Mas também existe outro lado.
Algumas pessoas começam a:
- comer refeições muito pequenas
- pular refeições porque não sentem fome
- reduzir drasticamente carnes, ovos, leite, iogurte, leguminosas e outras fontes de proteína
- consumir poucas frutas e vegetais
- beber pouca água
- ter uma alimentação muito repetitiva
- ou substituir refeições por pequenos lanches de baixo valor nutricional
A redução do apetite não garante automaticamente melhora da qualidade da alimentação.
Comer menos e comer melhor são coisas diferentes.
Nova revisão de 2026 reforça a preocupação com ingestão proteica insuficiente
A discussão ficou ainda mais atual em agosto de 2026.
Uma revisão publicada em 22 de agosto na revista Advances in Therapy analisou especificamente o risco de ingestão proteica insuficiente durante tratamentos com agonistas de GLP-1 e GIP/GLP-1 e suas possíveis implicações para sarcopenia secundária.
Os autores chamam atenção principalmente para pacientes mais vulneráveis, como pessoas mais velhas, indivíduos com obesidade associada à baixa massa muscular e pacientes que já apresentam resistência anabólica.
O raciocínio é importante: mesmo quando a porcentagem de proteína da alimentação permanece semelhante, a ingestão absoluta pode diminuir porque a pessoa está comendo muito menos.
Por exemplo, manter a mesma proporção de proteína dentro de uma dieta cuja ingestão energética caiu bastante pode significar consumir menos gramas de proteína ao final do dia.
Por isso, a avaliação deve considerar o que efetivamente está sendo ingerido, e não apenas a porcentagem de macronutrientes da dieta.
Qual é o papel da musculação durante o uso de Ozempic, Wegovy ou Mounjaro?

O treinamento de força é um dos principais estímulos para a preservação da massa muscular durante o emagrecimento.
A evidência disponível sugere que combinar redução de peso com exercício resistido produz uma composição da perda de peso mais favorável do que simplesmente emagrecer sem esse estímulo.
O objetivo não é transformar todo paciente em atleta.
A estratégia precisa respeitar idade, condicionamento físico, limitações articulares, doenças existentes e experiência anterior com exercício.
Para algumas pessoas, o primeiro passo será iniciar treinamento de força.
Para outras, será recuperar regularidade.
E para pacientes que já treinam, pode ser necessário ajustar alimentação, energia e proteína para que o treino continue tendo qualidade mesmo com a redução importante do apetite.
Como saber se estou perdendo gordura ou massa muscular?
Peso corporal isolado não responde essa pergunta.
Durante o acompanhamento podem ser utilizados, quando apropriados, indicadores como:
- peso
- circunferências
- evolução da cintura
- composição corporal
- bioimpedância
- dobras cutâneas
- força e desempenho no treinamento
- evolução clínica
- ingestão alimentar
- velocidade da perda de peso
Nenhum desses dados deve ser interpretado isoladamente.
Inclusive, termos como “massa magra”, “massa livre de gordura” e “massa muscular” não são exatamente sinônimos.
Métodos como bioimpedância e DXA avaliam diferentes compartimentos corporais, e alterações de hidratação também podem influenciar algumas medidas.
Por isso, o mais útil costuma ser acompanhar tendências ao longo do tempo utilizando condições de avaliação semelhantes.
Por que o acompanhamento nutricional vai muito além da proteína?
Seria um erro reduzir toda a discussão a “coma mais proteína”.
O próprio consenso europeu é mais amplo.
Ele aborda dimensões nutricionais, funcionais e psicológicas do tratamento.
Além da preservação de massa muscular, é necessário observar:
- qualidade global da alimentação
- ingestão de vitaminas e minerais
- consumo de frutas e vegetais
- fibras
- hidratação
- náusea
- vômitos
- diarreia
- constipação
- saciedade precoce
- aversões alimentares
- mudanças no comportamento alimentar
- função física
- relação com o corpo
- expectativas sobre o tratamento
- e preparação para manutenção dos resultados
É justamente por isso que reduzir o tratamento da obesidade à aplicação de uma medicação é uma visão incompleta.
O medicamento substitui o nutricionista?
Não.
A medicação e o acompanhamento nutricional cumprem funções diferentes.
Os medicamentos baseados em incretinas podem reduzir a fome, aumentar a saciedade e facilitar a criação de um déficit energético.
O acompanhamento nutricional trabalha sobre o que fazer com essa nova condição.
A diminuição do apetite pode abrir uma janela importante para construir novos hábitos.
Mas essa oportunidade precisa ser aproveitada.
O paciente precisa aprender a organizar refeições, atingir necessidades nutricionais mesmo com menor volume alimentar, preservar massa muscular, adaptar a alimentação à rotina e ao treinamento e desenvolver hábitos que não dependam exclusivamente do efeito do medicamento.
A medicação reduz a fome. A estratégia nutricional ajuda a decidir o que fazer com essa oportunidade.
E o que acontece quando o tratamento termina?
Essa pergunta também aparece no consenso europeu como uma área importante.
A obesidade é uma doença crônica e recorrente, e a interrupção de terapias farmacológicas pode ser acompanhada de recuperação de peso em parte dos pacientes.
Isso torna ainda mais importante utilizar o período de tratamento não apenas para reduzir o peso corporal, mas para construir uma estrutura que favoreça manutenção.
Durante o processo, procuro trabalhar principalmente:
- organização alimentar
- qualidade das escolhas
- adequação proteica
- consumo de frutas e vegetais
- hidratação
- treinamento de força
- manejo da rotina
- planejamento para viagens e refeições fora de casa
- monitoramento da composição corporal
- e capacidade de fazer escolhas sem depender de uma dieta extremamente rígida
A decisão sobre iniciar, ajustar, manter ou interromper semaglutida, tirzepatida ou qualquer outro medicamento pertence ao médico responsável pelo tratamento.
Meu papel como nutricionista é adaptar a estratégia alimentar às diferentes fases desse processo.
Então qual é a principal mensagem do novo consenso?
A principal mensagem não é que os medicamentos sejam ruins porque existe possibilidade de perda de massa magra.
Também não é que basta aumentar a proteína para eliminar qualquer risco.
A mensagem é muito mais equilibrada: terapias baseadas em incretinas são ferramentas importantes no tratamento da obesidade, mas seus melhores resultados acontecem dentro de um cuidado abrangente.
Emagrecer com qualidade exige olhar simultaneamente para:
- gordura corporal
- massa muscular
- qualidade nutricional
- atividade física
- função
- comportamento alimentar
- efeitos adversos
- saúde metabólica
- e capacidade de manter os resultados
O número da balança é apenas uma parte dessa história.
Acompanhamento nutricional durante o uso de GLP-1 em Goiânia e online
Sou Richardson Marcolino, nutricionista clínico e esportivo (CRN-1 19004).
No acompanhamento de pacientes em uso de semaglutida, tirzepatida e outros medicamentos baseados em incretinas, meu trabalho não é indicar qual medicamento deve ser utilizado. Essa decisão cabe ao médico responsável.
Minha atuação está na estratégia nutricional: avaliar alimentação, composição corporal, rotina, treinamento, exames e evolução para ajudar o paciente a reduzir gordura corporal preservando o máximo possível de massa muscular e construindo hábitos que façam sentido no longo prazo.
Realizo atendimento presencial em Goiânia e atendimento online para pacientes no Brasil e no exterior.
Se você usa ou está considerando usar um medicamento baseado em incretinas e quer um acompanhamento nutricional que ajude a preservar massa muscular durante o processo, você pode agendar sua consulta aqui.
Perguntas frequentes sobre GLP-1 e massa muscular
Quem usa Ozempic pode perder massa muscular?
Pode ocorrer redução de massa magra durante processos de perda significativa de peso, inclusive durante o uso de semaglutida. Isso não significa que toda a redução represente músculo nem que a semaglutida tenha um efeito simples de “destruir músculo”. Alimentação adequada, proteína individualizada, treinamento resistido e acompanhamento da composição corporal ajudam a melhorar a qualidade do emagrecimento.
Mounjaro causa perda muscular?
A tirzepatida promove perda importante de gordura, mas parte da redução total de peso pode incluir massa magra. A preocupação clínica deve ser preservar massa muscular e função durante o emagrecimento, especialmente em pessoas com maior risco de sarcopenia.
Quem usa GLP-1 precisa comer mais proteína?
Muitos pacientes precisam dar atenção especial à ingestão proteica porque a redução do apetite pode diminuir o volume total de alimentos consumidos. A quantidade ideal deve ser individualizada conforme peso, composição corporal, idade, treinamento e condição clínica.
Musculação é importante durante o uso de semaglutida ou tirzepatida?
Sim. O treinamento resistido fornece estímulo importante para preservar massa muscular durante a perda de peso e deve ser adaptado à condição física e clínica de cada pessoa.
Bioimpedância ajuda durante o tratamento com GLP-1?
Pode ajudar a acompanhar tendências de composição corporal ao longo do tratamento, desde que seja interpretada dentro do contexto clínico e realizada em condições padronizadas. Peso corporal isolado não mostra quanto da mudança ocorreu em gordura ou em massa livre de gordura.
Nutricionista pode indicar Ozempic ou Mounjaro?
A decisão sobre indicação, escolha, dose, ajuste ou suspensão desses medicamentos pertence ao médico responsável. O nutricionista atua na avaliação e no planejamento alimentar durante o tratamento.
Referências bibliográficas
- Dobbie LJ, Tolvanen L, et al. Nutritional, functional, and psychological considerations for incretin-based therapies in adults: an EASO, EFAD, and ECPO Consensus Statement. The Lancet Diabetes & Endocrinology. 2026. DOI: 10.1016/S2213-8587(26)00122-1.
- Eisa N, Barood O. Lean Mass Changes With Incretin Therapy Versus Lifestyle Intervention: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomised Controlled Trials. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2026;28(6):4818-4827. DOI: 10.1111/dom.70666.
- Prokopidis K, Cacciatore S, Anton SD, et al. Risk of protein intake deficiency during treatment with GLP-1 and GIP/GLP-1 receptor agonists: considerations for secondary sarcopenia. Advances in Therapy. 2026. DOI: 10.1007/s12325-026-03750-w.

